
POLÊMICA
Nossa aula de 26/04 - onde estudávamos a Multiplicidade e buscávamos a definição de Consistência, com base na obra "Seis propostas para o próximo milênio": Italo Calvino - foi repentinamente sacudida por uma discussão acerca da Loucura.
Partindo de um comentário sobre o filme "Contos proibidos do Marquês de Sade", onde a Consistência era exemplificada pelo rigor obsessivo de Donatien Alphonse - vulgo Marquês de Sade - que, sendo um "homem povoado por suas histórias", tinha a necessidade compulsiva de escrevê-las - fosse com papel, pena e tinta, fosse com vinho, sangue ou fezes.
Num paralelo entre a obra citada por Italo Calvino, como sendo seu grande exemplo para Consistência - o livro "Bartleby, o escrivão": Hermann Melville - foram também lembrados livros na mesma temática: pessoas comuns (?) sendo tragadas pela insanidade num cotidiano opressor - "História do cerco de Lisboa":José Saramago e "Um homem que dorme":Georges Perec. Naturalmente, estes são apenas dois pequenos exemplos de um tema muito caro à literatura em particular (sendo que a Arte em geral trata muito de abordar os mais variados aspectos da alienação).
Um aparte feito, relacionando o ponto em comum entre as obras literárias e o filme como sendo caracterizado pela loucura a que os personagens são levados - cada um dentro de seu contexto próprio - gerou uma inesperada discussão sobre psiquiatria, psicanálise, movimento anti-manicomial, preconceito, arte-educação como instrumento de reablilitação, o uso
pejorativo da palavra
loucura, que foi considerada perigosa e geradora de estigmas.
Cada um, dentro de suas crenças, vivências e razões defendeu seu ponto de vista acerca de Loucura, o que abriu para nós, coordenadores, um horizonte de discussões paralelas ao Laboratório, mas que podem ser absolutamente pertinentes e enriquecedoras,
se vistas sempre sob a ótica literária.
O PERIGO DAS PALAVRAS
ou como usar a literatura para contundir, e não confundir
Inspirada na fértil discussão da Loucura, buscarei transpor para o universo de Calvino uma possível abordagem das propostas, para um bom aproveitamento de temas polêmicos. Sem ser concessivo, brando, "cheio de dedos" - ou brutal, cru e inconseqüente.
Falar o que tem de ser dito, sem subterfúgios ou meias palavras. USAR AS PALAVRAS INTEIRAS, PRECISAS, CORRETAS, PLENAS DE SIGNIFICADOS. E USAR A AMBIGUIDADE AONDE ESTA CARACTERÍSTICA POTENCIALIZE A LEITURA.
Um escritor não deve ter nunca receio das palavras - é ele quem as domina. Quem vacila diante delas acaba sendo dominado. Não pode haver censura interna. Ao assumir plenamente os significados relativos de cada termo - dentro dos contextos sociais, históricos, culturais, lingüísticos - temos condições de trabalhar e até contestar ou ressignificar a realidade. Jamais, em tempo algum, buscar se defender das palavras - mesmo que estas nos firam em nossas crenças. É preciso coragem para enfrentá-las.
Já que Literatura se faz com palavras, e não com idéias, que assim seja. Amém!
LEVEZA
Rememorando a primeira conferência de Italo Calvino, surge-me o momento onde ele fala do "pesadume, inércia e opacidade do mundo" - qualidades que se aderem à escrita quando não se acha meio de fugir delas. Quando relaciona a questão a Perseu (o herói que venceu a Medusa por não olhá-la diretamente, mas através do reflexo em seu escudo de bronze polido) Calvino nos convida a voar para outro espaço.
"Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos..."
Penso então que, dentro da tão acalorada discussão que se desenrolou (e que deixou um clima
pesado no ambiente) não se é o caso de edulcorar a realidade e transformar a loucura numa doença cor-de-rosa, colocando os acometidos dela numa situação de coitadinhos - mas adotar um viés onde toda a sua feiura é exposta (como era a aparência da Medusa), mas onde ela não nos possa fazer mal. Nesse processo de subtração da matéria, resta depurado no nosso cadinho de alquimistas da palavra o
espírito ou
essência daquilo que queremos dizer.
Talvez então possamos pensar a Loucura como uma fuga da realidade - mas uma fuga alada, tal qual Ícaro - e desse modo tratá-la mais convenientemente...
RAPIDEZ
"O discorrer é como o correr", e assim Galileu resume aquilo que para Calvino é de importância capital na sua busca pela agilidade narrativa. E, diante da consciência de que a mídia, com sua velocidade espantosa reduz a comunicação a uma crosta uniforme e homogênea,
a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.
Portanto, aqui, jamais sermos precipitados, e sim maduros, dando ao Tempo seu devido Tempo, para que nossas mensagens sejam enviadas de maneira cristalina e econômica, sem desperdícios ou impaciência. Talvez lembrando que aqueles que são taxados de loucos o são por viverem dentro de um Tempo próprio, deslocado do relógio social que rege a "normalidade"...
EXATIDÃO
Três definições nos dá Calvino, para elucidar seu conceito de Exatidão: * um projeto de obra bem definido e calculado * a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis * uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação.
Tudo isso, para combater aquilo que ele considerava um "uso de modo aproximativo, casual, descuidado" da linguagem. A perda da força da mensagem, pelo uso abusivo das fórmulas genéricas que flagelam a língua. Contra o banal, a Literatura criar os anticorpos. E contra a banalização do viver, por que não as desconcertantes imagens precisas que só loucos como Sade, Artaud, Baudelaire ou Bispo do Rosário conseguiram criar???
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(WORK IN PROGRESS)[TRAVAIL EN PROCÈSSE]{PAPO EM ANDAMENTO}