Escrevi este texto após as conversas sobre multiplicidade e consistência. Irei escrever sobre outros autores que foram considerados "fora do padrão" e tocaram no tema da loucura de uma forma ou outra.


O Rigor das Paixões
No princípio era a palavra. Ela se vez verbo. Sadiano. Depois silêncio. Segredo. O real, o mundo, é a narração. Em Sade, apenas e tão-somente, ao "contar e ouvir nossas histórias" é que há existência: criação.
O literato, filósofo, dramaturgo (medíocre), romancista, fabulador Sade criou um mundo: sadiano. O uso da palavra em Sade é um uso de rigores: refeições extremamente pormenorizadas, descrições de roupas rituais (sempre há um quê de espetáculo nos deboches e paixões), corpos copulando, martirizados, seduzidos. A mente também é excitada nas orgias: há um sistema filosófico que sustenta a obra do divino marquês: ateu e carnal: toda uma moral baseada no mal é defendida pelos libertinos e eles tentam convencer não só os outros personagens como também o leitor.
Sade é o senhor da palavra: ele a humilha: ele a sevicia: ele a debocha: ele a maltrata: ele a cobre de fluidos corporais: ele a apaixona: ele é o senhor: ele domina. Quem domina é o senhor do mundo: mundos e vidas: fortunas. Sade ordena suas paixões. As palavras em Sade estão em estado de dicionário (Barthes): cruas: puras. Ele as emprega de forma que você as lê como se fossem neologismos: obscenidades (o neologismo é uma obscenidade lingüística).
O tecido textual sadiano é adamascado, múltiplo, transbordante. Às vezes furado, esburacado. O autor tem esta intenção, ele sabe o que quer. "Sou um libertino, mas não sou um criminoso nem um assassino". Ele sabia muito bem o que ele era. Ele conhecia retórica.
"Ponhamos um pouco de ordem em nossos prazeres, só se goza deles fixando-os" (Sade).
"Visto ser absolutamente preferível para o prazer que as coisas aconteçam de maneira ordenada" (Brahms).
A prática sadiana está dominada por uma grande idéia de ordem: os "desregramentos" (paixões?) são energicamente regrados: a luxúria é sem freio, mas não sem ordem. A palavra tece frases, estas tecem as histórias, estas a filosofia do escritor: urdidura e trama.
Como Sade ordenemos nossa paixões para gozar melhor do prazer do texto. Somos os senhores da palavra.